Adeus, Rei! Neguinho da Beija-Flor se despede da Avenida em noite emocionante
Um adeus emocionante na quadra da Beija-Flor
Na última quinta-feira, a quadra da Beija-Flor de Nilópolis foi palco de uma despedida emocionante. Não era um ensaio qualquer, mas sim o último de Neguinho da Beija-Flor como intérprete oficial da escola, após 50 anos de trajetória. A quadra lotada, com componentes, sambistas, crianças e veteranos, demonstrava a magnitude do momento. A atmosfera era carregada de alegria e saudade, refletindo o sentimento de todos presentes. Neguinho, mais do que uma voz, representa a alma sonora da Beija-Flor, um ícone insubstituível.
Reações e depoimentos: uma onda de emoção
A emoção tomou conta de todos. Roberto, integrante da harmonia desde 1997, resumiu o sentimento geral: "Neguinho só vai deixar saudade porque ele é ícone, é vida, é a alma da Beija-Flor, ele é tudo". O presidente da escola, Almir Reis, visivelmente emocionado, destacou a felicidade em proporcionar a homenagem, mas também a tristeza pela perda de um pedaço da história da Beija-Flor. "Perder o Neguinho é uma perda muito triste, mas faz parte. É uma escolha que ele fez e cabe a nós respeitar", declarou.
A presença de figuras emblemáticas como Anísio Abraão David (patrono da Beija-Flor) e Gabriel David (presidente da Liesa) reforçou a importância do momento. Intérpretes de outras escolas, como Tinga (Unidos de Vila Isabel), Zé Paulo Sierra (Mocidade), Pixulé (Paraíso do Tuiuti), Marquinho Art'Samba (Mangueira) e Pitty de Menezes (Imperatriz), prestaram suas homenagens, cantando sambas icônicos da Beija-Flor, em um verdadeiro coro de respeito e admiração.
Um legado inigualável: 50 anos de história
A trajetória de Neguinho se confunde com a história da Beija-Flor. Desde 1976, sua voz inconfundível marcou época, ajudando a construir o prestígio da escola e a acumular inúmeras vitórias. Seu legado transcende os títulos, elevando o papel dos intérpretes a um novo patamar. Ele imortalizou sambas históricos como "A Deusa da Passarela" e "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia", tornando-se uma referência da cultura brasileira e influenciando gerações.
Aos 75 anos, Neguinho, com seu sorriso marcante, agradeceu à comunidade pela acolhida ao longo de cinco décadas. Ele ressaltou a importância de dar espaço aos novos talentos, afirmando: "A gente também tem que deixar para os mais novos". Apesar da aposentadoria da avenida, ele garante que continuará levando a Beija-Flor para o mundo, com shows e viagens internacionais. "Vou continuar Beija-Flor, só estou aposentando o canto", brincou.
Emoções à flor da pele: a família Beija-Flor
A emoção foi contagiante entre os componentes da Beija-Flor. Mestre Rodney, Selminha Sorriso, Claudinho e outros ícones da escola se emocionaram profundamente. A comunidade, unida, cantava e vibrava, demonstrando o amor e a admiração por Neguinho. Selminha Sorriso, porta-bandeira, destacou a dificuldade em acreditar na realidade do momento, mas celebrou a valorização de Neguinho em todo o mundo. "O Neguinho é um grande representante da nossa gente, do povo preto", afirmou.
Mestre Rodney, da bateria Soberana, que durante décadas teve uma sintonia quase telepática com Neguinho, destacou o "encaixe perfeito" entre a voz do intérprete e a bateria. "Na adversidade ele sempre esteve comigo, me dando conselhos, um verdadeiro paizão", comentou carinhosamente.
Claudinho, mestre-sala, definiu Neguinho como "um ícone do carnaval, mas sobretudo, uma pessoa super humilde, um chefe de família, um paizão para gente". Ele enfatizou que a Beija-Flor o ama e que "esse teu ecoar, esse teu ‘Olha a Beija-Flor aí gente!’, ele nunca vai morrer, será sempre guardado no coração de todo aquele que se torna Beija-Flor de Nilópolis".
Saudade eterna: um adeus que não é um fim
A homenagem culminou com uma parada estratégica para que toda a comunidade cantasse em uníssono um trecho do samba-enredo de 2025. Marisa dos Santos, componente há 30 anos, resumiu o sentimento de todos: "Ele vai parar em boa hora, mas vai deixar muita saudade aqui pra gente... É triste, mas temos que aceitar".
Neguinho da Beija-Flor deixa um legado inesquecível. Sua voz, um símbolo do carnaval, ecoará para sempre na história, celebrando a alegria, a tradição e a resistência da cultura popular brasileira. Seu adeus não é um fim, mas um novo capítulo de um amor imortal pela Beija-Flor e pelo samba.