Porto da Pedra Ruge na Sapucaí com Enredo Corajoso sobre as 'Mulheres da Vida'!
O Tigre de São Gonçalo, a Unidos do Porto da Pedra, fez uma apresentação que deu o que falar na Marquês de Sapucaí, sendo a penúltima escola a desfilar no último dia da Série Ouro do Carnaval 2024. Com um tema ousado e socialmente relevante, a agremiação trouxe para a avenida um debate essencial sobre as profissionais do sexo, as "mulheres da vida", em um desfile que, apesar de uma plástica modesta, entregou um bom resultado geral.
Um Grito de Resistência na Passarela
Assinado pelo carnavalesco Mauro Quintaes e pelo enredista Diego Araújo, o enredo "Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite" foi um mergulho profundo na trajetória dessas mulheres historicamente marginalizadas. A narrativa explorou a sedução, a força simbólica da noite e o pesado julgamento moral imposto pela sociedade, buscando ressaltar a dignidade e o reconhecimento para além dos estigmas. A Porto da Pedra reafirmou sua identidade como uma escola que utiliza a Sapucaí para dar voz a narrativas frequentemente silenciadas, com setores que abordaram desde "Prazeres sagrados e profanos" até "Uma Puta Mulher!".
Comissão de Frente: Mistérios e Empoderamento
A "Encruzilhada de Mistérios", coreografada por Aline Kelly, foi um dos pontos altos do desfile. Com quinze bailarinos, a comissão representou o elo entre o profano e o sagrado na vida das profissionais do sexo, sob a perspectiva da espiritualidade afro-brasileira. Os figurinos curtos e coloridos, a sensualidade e o uso de máscaras que simulavam o desfoque facial – um toque genial para simbolizar a invisibilidade social – prenderam a atenção. A retirada das máscaras sobre um tripé em forma de encruzilhada, que exibia placas de ruas icônicas como "Francisco Eugênio" e "Vila Mimosa", e a emergência de Pombagiras, foram momentos de pura transformação e empoderamento. Apesar de um pequeno escorregão de um bailarino no primeiro módulo, a apresentação foi impactante.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Axé que Guia os Caminhos
Rodrigo França e Joyce Santos, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, brilharam com a fantasia "O Axé do Povo de Rua", em um elegante vermelho e preto. Rodrigo encarnou Exu, a entidade protetora das ruas, enquanto Joyce representou Pombagira, guardiã dos caminhos. Com uma coreografia clássica e sem falhas, a dupla garantiu a pontuação e a beleza do pavilhão.
A Evolução do Tigre de São Gonçalo
A escola demonstrou um bom controle de tempo, fechando o desfile em 54 minutos sem correrias ou paradas. No entanto, a movimentação das alas poderia ter sido mais intensa, e a vibração coletiva da comunidade, apesar de organizada, deixou a desejar, diminuindo o impacto visual e a dramaticidade que o enredo sugeria.
Harmonia e Canto: Altos e Baixos
O carro de som, sob o comando impecável do intérprete Wantuir, entregou uma performance de gala. Contudo, o canto da comunidade foi apenas regular, com muitos componentes não fazendo o esforço necessário para acompanhar o samba-enredo à altura da voz potente do puxador.
Fantasias e Alegorias: A Plástica que Contou a História
As fantasias da Porto da Pedra atravessaram a avenida sem avarias, com alas como "Perdições do Bataclan", "Perpétua Moralidade" e "Meninas do Job" se destacando pela clareza didática e pela nítida referência ao enredo. As alegorias, embora modestas, foram produzidas corretamente e sem defeitos. A primeira, "Cais da Labuta Meretrícia", representou a chegada das "Polacas" ao Rio. A segunda, "Meu Ofício é o Seu Prazer", retratou a prostituição no ambiente noturno com bailarinas de pole dance. A última alegoria, "Uma Puta Mulher!", foi um verdadeiro manifesto de celebração e resistência, com a ativista Lourdes Barreto em destaque, a cereja do bolo de uma mensagem poderosa.
Samba-Enredo: Um Manifesto em Versos
Composto por Bira, Rafael Raçudo, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Eric Costa, Fernando Macaco (em memória), Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Miguelzinho, Jarrão e Pierre Porto, o samba-enredo foi um verdadeiro manifesto político, social e de gênero em defesa das profissionais do sexo. A letra, que trazia trechos como "Fiz um Porto da Pedra que você jogou" e "Tigresa que mata um leão por dia!", reforçou a genialidade da composição e a forte conexão com a identidade da escola.
Destaques que Brilharam
- O carro de som, com Wantuir em performance impecável.
- A Comissão de Frente, inovadora e cheia de simbolismo.
- O casal Rodrigo França e Joyce Santos, com sua dança clássica e fantasias impactantes.
- A última alegoria, "Uma Puta Mulher!", com a homenagem à ativista Lourdes Barreto.
- Mestre Pablo, que, vestido de tigresa loira na indumentária "Tigresa Que Mata Um Leão Por Dia", foi um show à parte.
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