Beija-Flor: Candomblé da Bahia e ancestralidade negra invadem a Sapucaí!
Beija-Flor de Nilópolis: Um Grito de Liberdade e Fé na Sapucaí
A Beija-Flor de Nilópolis, sempre majestosa, trouxe para a Avenida um enredo que emocionou e fez refletir: uma grandiosa homenagem ao Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo. A escola da Baixada Fluminense uniu, de forma brilhante, as culturas de Santo Amaro, na Bahia, e de Nilópolis, no Rio de Janeiro, sob o poderoso elo da ancestralidade negra. Foi um desfile que celebrou a vida, a luta e a rica herança afro-brasileira, reafirmando a importância da memória e da resistência em cada passo na Marquês de Sapucaí.
O enredo da Deusa da Passarela foi uma imersão profunda nas raízes afro-brasileiras, destacando a força e a beleza das tradições que moldaram a identidade cultural do país. A escolha de homenagear o Bembé do Mercado não foi apenas um tributo a uma festa religiosa, mas um reconhecimento da potência da fé e da comunidade como pilares de uma história de superação e celebração. A agremiação conseguiu traduzir em cores, ritmos e movimentos a essência de um povo que, através de suas manifestações culturais e religiosas, mantém viva a chama de sua ancestralidade.
Bembé do Mercado: A Inspiração Divina na Passarela
O coração do enredo pulsou na celebração do Bembé do Mercado, uma manifestação religiosa e cultural de Santo Amaro que reverencia os orixás e a memória dos antepassados. A Beija-Flor traduziu essa força ancestral em cada detalhe, desde as fantasias vibrantes até as alegorias imponentes. A ala 28, batizada de "Evoco a Baixada de Todos os Santos que pede e agradece", desfilou como uma oferenda viva, carregada de gratidão e pedidos coletivos, ressaltando a fé inabalável e a conexão com as raízes. Essa representação simbólica reforçou a ideia de que o Carnaval é também um espaço de espiritualidade e de diálogo com o sagrado, onde a alegria se mistura à devoção.
A escola não apenas exibiu a beleza do Bembé, mas também contextualizou sua relevância histórica e social, mostrando como essa celebração é um ponto de encontro e fortalecimento da identidade negra. A fusão das culturas de Santo Amaro e Nilópolis na Avenida demonstrou a universalidade dos laços ancestrais e a capacidade do samba de ser uma ponte entre diferentes realidades, unindo-as em um propósito comum de celebração e reconhecimento. A mensagem foi clara: a ancestralidade negra é um elo indissolúvel que conecta gerações e territórios, e o Carnaval é o palco perfeito para essa manifestação.
Vozes da Comunidade: O Que Sentiram os Foliões
A experiência na Sapucaí foi ainda mais intensa para aqueles que vivenciaram o enredo de perto, sentindo na pele a emoção e o significado de cada elemento. Ouvimos alguns componentes que compartilharam suas impressões e a profundidade de sua conexão com a proposta da Beija-Flor:
- Cláudio Files, professor de filosofia (63 anos): Desfilando há cerca de oito anos, Cláudio destacou a ressignificação do 13 de maio, a data da abolição da escravidão. Para ele, o desfile da Beija-Flor não só celebra o Carnaval como uma festa intrinsecamente negra e a Bahia como potência da negritude, mas também reforça que a liberdade foi fruto de muita luta, quilombos e sofrimento, e não uma dádiva de uma princesa. Uma perspectiva que convida à reflexão sobre a verdadeira história da abolição.
- Juliana Ferreira, jornalista (36 anos): Em seu segundo desfile pela azul e branco, Juliana revelou uma conexão especial com o tema. Ela já planejava conhecer o Bembé do Mercado antes mesmo do anúncio do enredo e percebeu as profundas ligações entre Santo Amaro e Nilópolis, como a centralidade da Avenida Mirandela para a comunidade. A "travessia das águas" simbolizou para ela não apenas a passagem pela Avenida, mas também a gratidão pelos ancestrais e a construção contínua da escola, uma jornada de fé e pertencimento.
- Vitor Sampaio, dentista (24 anos): Em seu segundo ano na agremiação, Vitor identificou paralelos marcantes entre o Bembé e o que ele carinhosamente chamou de "quilombo de Nilópolis", representado pela própria Beija-Flor. "O povo do Bembé representa muito o quilombo da Beija-Flor, do povo preto, do povo macumbeiro. A gente tem a mesma identidade cultural. Existe um encontro real com essa manifestação e com essa festa maravilhosa", afirmou, evidenciando a sintonia entre as comunidades.
- Raísa Schefer, servidora pública (32 anos): Estreante na escola, Raísa viu no desfile uma coroação de sua trajetória na comunidade e um profundo agradecimento espiritual. Para ela, é a celebração da vivência e do compartilhamento de um momento tão especial na Avenida com pessoas amadas, uma experiência coletiva que transcende o simples ato de desfilar, tornando-se um rito de passagem e união.
A Mensagem por Trás do Brilho e da Emoção
O desfile da Beija-Flor de Nilópolis foi muito além do espetáculo visual. Foi um poderoso abraço entre Nilópolis e Santo Amaro, territórios irmãos que se encontraram na Sapucaí para celebrar a liberdade conquistada com garra, a resistência que ecoa através dos séculos e a inestimável riqueza da cultura afro-brasileira. Uma verdadeira aula de história, fé e identidade, reafirmando o Carnaval como palco de importantes narrativas sociais e culturais. A escola de Nilópolis, mais uma vez, provou que o samba é uma ferramenta potente para educar, emocionar e unir, deixando uma mensagem duradoura sobre a importância de valorizar e preservar as raízes que nos definem como nação.
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