Quiabo no Carnaval? União de Jacarepaguá leva fé e tradição à Intendente!
União de Jacarepaguá Encanta com a Saga do Quiabo na Intendente Magalhães!
A União de Jacarepaguá transformou a Intendente Magalhães em um palco de história e cultura no primeiro dia da Série Prata do Carnaval carioca. Com o enredo "Quingombô: Entre Dois Mundos", assinado pelo carnavalesco Ney Jr., a escola de Campinho fez o quiabo brilhar como protagonista de uma jornada ancestral, conectando a África ao Brasil em um desfile emocionante e cheio de simbolismo.
"Quingombô": Uma Travessia de Fé e Resistência
O enredo da União de Jacarepaguá mergulhou nas raízes do quiabo, um fruto que transcende a culinária para se tornar um poderoso elo entre continentes. A narrativa destacou como suas sementes, guardadas nas tranças de mulheres escravizadas, simbolizaram resistência e um futuro possível durante a travessia forçada da África ao Brasil. Na avenida, o quiabo ganhou vida como elemento ritualístico, presente nas oferendas a orixás como Xangô (no amalá) e aos ibejis (no caruru), celebrando pureza e alegria. Cada ala parecia temperada de fé, e as fantasias, bordadas de memória, contaram essa rica história de herança cultural e espiritual.
A escola de Campinho, mesmo enfrentando alguns desafios no percurso, demonstrou garra e conseguiu finalizar sua apresentação dois minutos antes do tempo limite, um feito notável na disputada Série Prata do Carnaval carioca.
Destaques da Apresentação que Fizeram a Diferença
Comissão de Frente: Um Portal para a Ancestralidade
- A comissão de frente, sob a batuta do coreógrafo Daniel Napoleão, abriu alas como um portal simbólico para a narrativa do enredo.
- Em cena, o amalá de Xangô e a história das sementes de quiabo escondidas nas tranças de mulheres negras escravizadas ganharam vida em uma coreografia envolvente.
- Composta por onze bailarinos e nove mulheres, a apresentação utilizou um tripé cenográfico interativo que, apesar de um breve incidente na terceira cabine de julgamento (quando emperrou e deslizou), foi superado pela entrega e jogo de cintura dos componentes, que mantiveram a fluidez da cena.
- Os figurinos, com saias amarelas, túnicas verdes e adornos em palha e folhagens, eram visualmente impactantes, embora as sandálias em alguns casos destoassem da harmonia geral.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Elegância em Movimento
O casal Paulo Erick e Joyce Santos, mestre-sala e porta-bandeira, foi, sem dúvida, um dos pontos mais luminosos do desfile. Com um bailado elegante, sincronizado e cheio de carisma, eles conduziram o pavilhão com maestria e segurança, exibindo entrosamento e técnica apurada. Seus figurinos vibrantes, com predominância de amarelo e coral, eram um espetáculo à parte, mesmo com um detalhe na saia da porta-bandeira que se apresentava mais suspensa que o usual, chamando a atenção em meio à nobreza do conjunto. A beleza da apresentação e a segurança do casal prevaleceram, honrando o símbolo maior da escola.
Samba-Enredo e Harmonia: Potência com Espaço para Crescer
O samba-enredo, interpretado com vigor por Rogerinho e seu carro de som, tinha uma construção inteligente e criativa, que soube equilibrar a religiosidade e a culinária do quiabo de forma cativante. Contudo, o canto da comunidade, embora alegre e presente, ficou em um patamar apenas mediano, sem atingir a vibração coletiva que poderia ter transformado o desfile em um momento arrebatador. A escola demonstrou boa organização, com alas alinhadas e fantasias bem distribuídas, indicando planejamento. No entanto, a intensidade do canto e a evolução poderiam ter sido mais fortes para contagiar ainda mais a avenida, elevando a experiência a um novo patamar.
Alegorias e Adereços: Criatividade que Preenche a Avenida
Com apenas duas alegorias na pista, a União de Jacarepaguá apostou na força e no volume de suas 11 alas coloridas para preencher a avenida, e conseguiu! Destaques para a ala das crianças, vestidas de ibejis, que arrancaram sorrisos do público e reforçaram o elo entre o sagrado e a alegria. As baianas, com fantasias especialmente caprichadas, reafirmaram a importância dessa ala que é o coração de qualquer escola de samba. A criatividade, o uso inteligente das cores e a organização provaram que é possível preencher o espaço com grandiosidade e impacto visual, mesmo com uma estrutura de alegorias mais enxuta.
Outros Brilhos na Passarela
- A bateria Ritmo União, sob o comando de Mestre Demetrius, mostrou consistência e pulsação firme, com ritmistas em fantasias pretas e vermelhas, mantendo a cadência perfeita do samba ao longo de todo o percurso.
- O rei Igor Almeida e a rainha Pamela Carvalho esbanjaram presença e energia à frente da bateria, interagindo com os ritmistas e o público e reforçando o clima festivo.
- Um dos momentos mais emocionantes e doces do desfile foi a distribuição de guloseimas promovida pela comissão de frente e pela ala das crianças. Esse gesto simples transformou a avenida em uma extensão da festa, aproximando a escola do público e materializando o simbolismo dos ibejis em uma celebração que misturou fé, doçura e pertencimento.